sexta-feira, 14 de junho de 2013

Introdução à Teologia Paulina


Por Danyllo Gomes


    Dentro do Novo Testamento (NT) é fato que temos vários escritores. Evangelhos, cartas gerais e cartas paulinas são os livros que temos no cânon do NT. Entretanto há a dúvida de alguns escritores. Em particular, neste texto irei tentar abordar a respeito do apóstolo Paulo de Tarso. Dentre todos os escritores do NT ele é o que mais se destaca, tanto por quantidade, quanto por assuntos abordados. Podemos atribuir ao apóstolo, aproximadamente 60% a 70% do cânon do NT.

Unidade do NT

    Dentro do NT temos vários assuntos de diferentes tipos colocados de diferentes formas. Há pessoas que argumentam a respeito disso dizendo que o fato do NT ter tanta variedade de assuntos faz disso ele (NT) de contraditório. Porém, essas pessoas antes de tudo utilizam o pressuposto errado para analisar a Bíblia. Eles não acreditam na inspiração divina. Portanto, nós que cremos que a Bíblia é tanto humana quanto divina, cremos que todo o NT tem suas diferenças, mas em vez disso torná-lo contraditório torna-o completo e diverso. Não é por que a Bíblia trata de assuntos diverso que ela tornar-se-á contraditória, não é? Portanto, partindo do pressuposto do tota scriptura analisaremos o NT como um texto inspirado e completo.

Quais as cartas de Paulo?

    Antes de sabermos o que analisar precisamos decidir o que analisar. Será que é confiável? Ou não? Essas são as perguntas que fazemos quando vamos estudar a respeito de qualquer outro texto. E isso não é diferente com as Escrituras. Se vamos analisar a Teologia Paulina precisamos saber se a fonte desta teologia é confiável. Se foi o próprio Paulo que escreveu, ou não? Essas são questões que vamos tentar tratar neste ponto.
    Há um nome ao qual podemos definir o corpo de 13 cartas que são atribuídas ao apóstolo Paulo: corpus paulinus. Depois do séc. XVII alguns teólogos começaram a questionar a autoria de algumas dessas cartas que eram atribuídas a Paulo. Alguns deles acreditam que foram escritas por admiradores, outros por imitadores, e por aí vai. Algumas cartas ficaram fora da discussão, elas são: 1º e 2º Coríntios, Romanos e Gálatas.
    Alguns dos pontos levantados para questionar a autoria paulina das cartas ou não são: diferença de vocabulário, diferença de temas teológicos, estilo diferente, eclesiologia muito elaborada para o primeiro século. O Dr. Augustus Nicodemus argumenta da seguinte forma: “se nos lembrarmos que Paulo escreveu ao longo de 15 anos, que usou amanuenses, que suas cartas tratam de diferentes assuntos levantados por diferentes situações e diferentes igrejas, e que a eclesiologia do primeiro século já era bem elaborada...”, se nos lembrarmos disso conseguiremos entender as cartas paulinas sem precisar abrir mão do pressuposto da inspiração do cânon do Novo Testamento.

Qual a fonte da teologia de Paulo?

    De onde vieram as ideias de Paulo? Há alguns temas na teologia de Paulo que só aparecem em sua carta, de onde ele tirou? Por que cultura ele foi influenciado?
    A verdade é que Paulo foi criado em três mundos: hebraico, judeu e grego. Ele foi criado e educado como judeu na cultura hebraica; viveu no mundo grego, na cultura, religião; e pertencia ao mundo romano, o qual era cidadão. Portanto, a partir desse pano de fundo dá pra perceber que Paulo além de ser um homem bastante estudado, também era bastante “rodado”, ou seja, já havia passado por várias culturas e sofria influencia de todos os lados.
    Antes vamos tentar entender como era o judaísmo na sua época. O judaísmo era dividido em duas partes: o da Dispersão e o da Palestina. Os judeus da dispersão não eram tão rigorosos, pois estavam longe do templo, sempre entre gentios e foi muito influenciado pelo helenismo; porém, apesar de tudo, mantinham-se fieis as principais instituições judaicas. Já o judaísmo da Palestina era considerado mais rigoroso por causa do templo, não sofriam influencia do helenismo e nem dos gentios, tinha a presença das seitas da época (fariseus e escribas), porém não podemos fazer uma grande diferença entre os dois judaísmos.
    O fato é que Paulo era um judeu da Dispersão, foi criado em Tarso com uma educação rabínica de primeira qualidade. Ele foi ensinado aos pés de Gamalieu, um dos maiores estudiosos do judaísmo. Portanto, precisamos observar que a mente de Paulo era bastante influenciada pelo Judaísmo.
    Com o passar do tempo, várias discussões acerca do “pano de fundo” de Paulo entraram em cena. Alguns acreditavam que o pensamento de Paulo era basicamente grego, bastante influenciado pelo dualismo grego entre o bem e o mal e as ideias do neoplatonismo dessa época. Outros acreditavam que Paulo era um gnóstico, e que algumas das suas doutrinas, como, por exemplo, a união com Cristo, foram emprestadas das religiões de mistério (religiões pagãs da época). Portanto, quando se estuda Paulo com esse “pano de fundo” eles procuram paralelos com influencias as quais eles acreditavam que Paulo sofria. Entretanto, a fonte real do pensamento de Paulo era o Judaísmo. Por ter sido criado toda a vida no judaísmo da Dispersão, ter morado em locais onde sempre tinha sinagogas, nota-se que Paulo realmente era um judeu. Sua fervente perseguição contra os judeus mostra isso. A conclusão que tiramos é que o pensamento de Paulo estava embasado no Antigo Testamento, a fonte de literatura judaica, a qual ele seguia e acreditava.
    Além da influência do Antigo Testamento não podemos deixar de citar os ensinamentos de Jesus como fonte para a teologia de Paulo também. Em 1 Coríntios 11:23 vemos que Paulo diz que recebeu alguns ensinamentos do Senhor através de cristãos. E também houve a influencia do ensino da igreja apostólica. Em 1 Coríntios 15:3-4 vemos Paulo afirmando que ele “recebeu” os pontos fundamentais da fé. Esse 'receber' significa que através de ensinamentos, através da tradição oral dos apóstolos pelos cristãos, os ensinamentos chegaram até Paulo e ele os conheceu.
    Com isso, fica a conclusão que devemos entender a teologia de Paulo de acordo com: as Escrituras do Antigo Testamento, os ensinos de Jesus e os ensinos da igreja apostólica. Esses são o três principais pilares que se baseiam a teologia do apóstolo Paulo.

Paulo mudou sua teologia com os anos?

    Precisamos ter em mente que Paulo era inspirado por Deus quando escrevia suas cartas; por outro lado também sabemos que ele é humano, portanto ele está sujeito às normalidades da vida humana, como, por exemplo, crescimento intelectual e físico. Como de costume, muitas pessoas mudam suas ideias com o tempo. A pergunta que surge é: será que Paulo mudou seu pensamento com o tempo? A primeira carta que Paulo escreveu não condiz com sua ultima? Ele mudou sua teologia?
    Alguns teólogos acreditam que não podemos falar de uma teologia paulina, mas sim de várias. Eles afirmam que o corpo das cartas de Paulo não se unem, pois são pensamentos diferentes em épocas diferentes. Portanto suas cartas não refletem um pensamento só, coerente e maduro, mas que tem ideias contraditórias.
    Ao mesmo tempo que tem se instalado esse tipo de pensamento no meio teológico do cristianismo, do outro lado temos teólogos conservadores defendendo a posição histórica de que: “Não! Não podemos falar de várias teologias de Paulo, mas sim de uma. Paulo é inspirado por Deus, portanto a Bíblia não contém contradições.” O Dr. Augustus Nicodemus coloca da seguinte forma: “...as supostas contradições apontadas podem e tem sido explicadas como diferentes ênfases motivadas pelo caráter circunstancial das cartas. Por exemplo, a aparente contradição entre uma atitude crítica do apóstolo para com a Lei de Moisés em Gálatas e sua atitude mais amena e branda em Romanos explica-se levando-se em conta a situação em que Paulo escreveu Gálatas – missionários judaizantes querendo obrigar os crentes gentios a guardarem a lei de Moisés para serem salvos - e a situação e propósito da carta aos Romanos – dar uma explicação mais detalhada do Evangelho que ele pregava. Esta explicação é muito mais coerente do que a hipótese de que Paulo teria sido repreendido por Tiago após ter escrito Gálatas e então modificou se pensamento em Romanos, como defendem alguns.”
    Podemos observar que o não falta explicações coerentes contra essas que estão sendo levantadas contra uma teologia unificada do apóstolo. Não só essa que o Dr. Augustus Nicodemus observa, mas muito mais. É fato que Paulo mudou seu pensamento com o tempo, mas esse pensamento não influenciou necessariamente numa mudança de teologia, mas sim de acréscimo. Paulo não mudou sua teologia com o tempo, apenas acrescentou mais conhecimento a ela. Então esse crescimento gradual de conhecimento não implica, necessariamente, numa contradição no pensamento do apóstolo.

Soli Deo Gloria.



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